24/04/1555: Do P. Luís Da Grã [Ao P. Diego Mirón], Lisboa Espírito Santo
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Documento
I. Bibliografia: LEITE, História VIII 284 n. 4.II. Autores: Leite, História l 212 233-234; Cartas de Nóbrega (1955) 219-220.
III. Texto: ARSI, Bras. 1-1, II. 136r-137v [antes 396r-397v], f. 138 em branco. Cota [f. 138v] : «Ihs. Copia de carta dei P.^ Luis da Grãa. Del Brasil, de 24 de Abril 1555». Outra letra: «Del Spiritu Santo». Letra do P. Polanco: «Para mostrar al Senor Enbaxador». Quarta letra: «Litterae Brasilicae». E quinta: «Brasiliae». Apógrafo.
IV. Impressão: Leite, Novas Cartas Jesuíticas — de Nóbrega a Vieira (São Paulo 1940) 177-178.
V. Destinatário: Tira-se do contexto que foi mandada ao Provincial a quem pede a bênção: «lance a sua santa bênção». Provincial era Diego Mirón.
VI. Edição: Edita-se o texto (Bras. 1-1).
Textus (Sumário em Latim)
- Navi oneraria profectus Bahia, nunc adest in Praefectura Spiritus Sancti cum P. Blasio Lourenço. — 2. Bellum ab Indis «Tamoios». — 3. Terra est fertilis, patefiunt fodinae metallorum et gemmarum. — 4. Aegrotant ipse et P. Lourenço. — 5. Pergit ad Praefecturam S. Vincentii et deficientibus navibus tantummodo nunc tradet Patri Nóbrega epistolam Patris Provincialis [Mirón]. — 6. Duo Fratres et orphanus Ludovicus missi e Praefectura S. Vincentii. — 7. Pagus Principalis «Maracaiaguaçu», qui Flumine Ianuario nunc pervenit. — 8. Modus et ratio cur «Maracaiaguaçu» eiusdemque indi venerint in Praefecturam Spiritus Sancti. — 9. Novus Pagus prope oppidum [Vitória]. — 10. Illi duo Fratres ab Indis occisi fundamentunt erunt novae Ecclesiae Brasiliae.
Jesus
A graça e amor de Christo Jesu seja en nossas almas.
- Eu parti da Baia pera Sam Vicente a derradeira oitava do Natal, e porque não ouve outro navio em que podesse ir, senam este que vai fazendo as detenças pellos portos dos Indios que costumão fazer os navios que vão a rresgatar, não podemos chegar mais que até esta Capitania do Spirito Sancto, onde estive todo este tempo pregando e ouvindo as confissões da Coresma e ajudando ao P. Brás Lourenço, que aqui achei com hum Irmão que se quá recebeo. Tem elle aqui mui bem exercitado seu officio e com muito fructo nos moradores desta terra, e enxergada mudança na mais da gente.
- Cora os Indios não se pode ateguora assi fazer, porque estão mui apartados e muito mais fora de quererem dar seus filhos, como hé en todas as Capitanias, que atequi vi. Creo eu que o causa a grande cobiça que tem quá os brancos de lhos averem por escravos. Com os escravos se tinha aqui mui boa ordem em os ensinar até o tempo que eu aqui cheguei, onde se começou a guerra por que já dantes estavam esperando: porque dahi a sete ou oyto dias fizerão os Tamoios hum salto em que levarão sete pessoas, ainda que nenhuma era algum dos brancos, senam hum moço mamaluco. Parece que praemettio Deus aquelle desastre pera se aperceberem e tirarem do descuido em que estavão; ateguora estiverão sperando por elles. Estrovou o Senhor Deus sua vinda, ainda que no Brasil o mais forte da guerra, segundo elles dizem, ee este sobresalto em que estão, com que não ousão ir às suas roças nem a pescar.
- Ee esta terra mui fértil dos mantimentos da terra, onde milhor se poderiam manter os meninos dos gentios que en nenhuma outra Capitania. Estão os moradores mui contentes, porque alem do metal, que se na mesma Villa achou que se quá tem por prata, e muito ferro, mandou o Capitão Vasco Fernandez Coutinho descobrir pello sertão e acharão ouro e certas pedras que dizem que serão de preço, e que dum e doutro aa muita copia. Cousa hé por que devemos de dar muitas graças a Deus, porque além de ser bem commum, temos quá todos por mui averiguado que o fructo neste gentio aa-de ser com vir tanta gente a estas terras que os possão sugigüar.
- No principio da Coresma acertamos de adoecer o P. Brás Lourenço e eu e fomos sangrados cada hum seu par de vezes, e aguora depois que com tempo e muita aguoa tornamos arribar, tornei adoecer; parece que ficará en terçãas.
- Dizem-me que será maravilha poder lá chegar, porque sam acabados os nordestes e sam já entrados os suduestes que an-de durar seis meses, e contudo assi como estou me embarcarei, segundo me mandarão recado, oje ou amenhãa, porque além de mo ter já escripto o P. Manuel da Nóbrega, depois que arribei chegarão a este porto dois navios, que de Sam Vicente partirão em diversos dias, e em ambos me escreve que en toda maneira vaa, e assi ee necessário pera elle vir à Baia, como V. R. escreve. Eu lhe levo a carta, porque depois que sou no Brasil soo hum navio foi da Baia pera Sam Vicente em que forão os Irmãos cora o P. Leonardo Nunez, a quem Deus lá leve mais a salvamento do que se quá diz, porque aa nova que o navio em que hia fora tomado dos francezes.
- Em hum dos navios vinha hum Irmão pera esta Capitania e outro que ee ho portador desta, do qual fará relação o Padre nas cartas que com esta vão, que eu nunqua o vi senão aguora, e delle saberá mais particulares novas dos que estão en Sam Vicente. Com elle vai outro, que se chama Luis, que de lá veo de Lixboa da Casa dos Órfãos, porque escreveo Paschoal que o pedia sua mãi.
- Fiqua aguora o P. Brás Lourenço com huma nova ocupação, de que temos confiança em o Senhor que se sigua mais certo fructo do que sinto en nenhuma outra parte que eu tenha visto do Brasil: porque, depois que [137v] eu tornei arribar a esta Capitania, chegou aqui hum principal que chamam Maracajaguaçu que quer dizer guaço grande, que ee mui conhecido dos christãos e mui temido entre os gentios, e o mais aparentado entre elles. Este vivia no Rio de Janeiro e aa muitos annos que tem guerra com os Tamoios, e tendo dantes muitas victorias delles, por derradeiro vierão-no pôr en tanto aperto con cercas que puserão sobre a sua aldeã e dos seus, que foi constrangido a mandar hum filho seu a esta Capitania a pedir que lhe mandassem embarcação pera se vir pello aperto grande em que estava, porque elle e sua molher e seus filhos e os mais dos seus se queriam fazer christãos.
- Moveo isto a piedade aos moradores por saberem quanta bondade e boom tratamento e fidelidade usara sempre com os christãos e que os mesmos christãos que então vierão dessa parte affirmavão a extrema necessidade, e lhes parecia que dahi a mui poucos dias seriam comidos dos contrários, e que aquella vontade de ser christão tinha elle dito muito avia a muitas pessoas, e assi o dixera a Thomé de Sousa. Mas não ousarão a íazê-llo por ser elle de Capitania alhea, que ee São Vicente a quem elle não mandou pedir esse socorro por serem seus contrários também os Índios de Sam Vicente, e assi se tornou seu íilho sem ajuda. E depois que cheguou Vasco Fernandez Coutinho, parece que sabendo, tornou-se outra vez do caminho a pedir-lhe este socorro. Pedimos-lhe então muitas pessoas que, sendo certa a extrema necessidade em que diziam estar, pois assi como assi aviam de ser comidos dos contrários, que mandassem por elles porque com isso salvar-se hiam aquellas almas, e principalmente os filhos pequenos e compreriam os christãos com o que deviam a tam boa amizade como nelle sempre tiverão. Tirou Vasco Fernandez Coutinho sobre isso testemunhas e mandou 4 navios pera que fossem seguros dos francezes, que sempre aa naquelle Rio, e que lhe dessem todo favor con artelharia e mantimento que levavão, mas que não os trouxessem se não estivessem em extrema necessidade. Chegando lá os navios, estando já com casas e fato queimado, dentro em dia e meo se embarcarão com tanta pressa, que aviam pais que deixavão na praia seus filhos, e dois que ficavão na praia pera expirar já de fome baptizarão loguo e no-los derão.
- Estes fazem sua aldeã apeguada com esta Villa. Fazia eu de conta se estivera aqui de hir morar entre elles mas o P. Brás Lourenço se occupará com elles e espero no Senhor Deus que se farão christãos e que dahi ajuntaremos alguns mininos e que serão mais fieis do que eles acostumão ser.
- Lá creo que saberá V. R. da morte dos nossos dois Irmãos que os Carrijós matarão. Queira Nosso Senhor fundar ali huma nova Igreija, que por ali começou nas outras partes. V. R. por amor do Senhor Deus tenha ante elle memoria deste seu tão indino filho e me lance sua santa benção. En as orações dos meus charissimos Padres e Irmãos me encomendo intimamente. Não lhes escrevo, ainda que sempre tive esta manha roim, porque, já que não posso a todos, não ouso a alguns, nem ao presente posso. Aos dilectissimos Irmãos meus que me escreverão dê-lhes Deus a perfeição que lhes eu desejo.Desta Capitania do Spiritu Santo, oje 24 d’Abril de 1555. Inutillismo filho de V. R. Luis de Grã.
Tradução para o português (feita por IA)
Jesus A graça e o amor de Cristo Jesus estejam em nossas almas.
Eu parti da Bahia para São Vicente na última oitava do Natal. Como não havia outro navio em que pudesse ir, senão este que vai fazendo paradas pelos portos dos índios (como costumam fazer os navios que vão para o resgate/comércio), não pudemos chegar além desta Capitania do Espírito Santo. Estive aqui todo este tempo pregando, ouvindo confissões da Quaresma e ajudando o Padre Brás Lourenço, que encontrei aqui com um Irmão que aqui foi recebido. Ele tem exercido muito bem seu ofício, com muito fruto entre os moradores desta terra e uma mudança visível na maioria da gente.
Com os índios, não se pôde fazer o mesmo até agora, porque estão muito afastados e muito menos dispostos a entregar seus filhos, como ocorre em todas as Capitanias que vi até aqui. Creio que a causa seja a grande cobiça que os brancos têm aqui de transformá-los em escravos. Com os escravos [já convertidos], havia aqui uma ordem muito boa no ensino até o momento em que cheguei, quando começou a guerra pela qual já estavam esperando: sete ou oito dias depois, os Tamoios realizaram um ataque surpresa no qual levaram sete pessoas — embora nenhum fosse branco, mas sim um jovem mameluco. Parece que Deus permitiu aquele desastre para que eles ficassem alertas e saíssem do descuido em que estavam; até agora estiveram esperando por eles. O Senhor Deus estorvou a vinda deles, embora no Brasil o ponto mais forte da guerra seja esse sobressalto constante em que vivem, que os impede de ousar ir às suas roças ou pescar.
Esta terra é muito fértil em mantimentos locais, onde melhor se poderiam manter os meninos gentios do que em qualquer outra Capitania. Os moradores estão muito contentes porque, além do metal encontrado na mesma Vila (que aqui consideram ser prata) e muito ferro, o Capitão Vasco Fernandes Coutinho mandou explorar o sertão e acharam ouro e certas pedras que dizem ser preciosas, e que de ambos há grande quantidade. É algo pelo qual devemos dar muitas graças a Deus porque, além do bem comum, todos aqui temos por certo que o fruto espiritual entre este gentio virá com a chegada de tanta gente a estas terras que os possa subjugar.
No princípio da Quaresma, aconteceu de o Padre Brás Lourenço e eu adoecermos. Fomos sangrados duas vezes cada um. Agora, depois de nos recuperarmos com o tempo e muita água, voltei a adoecer; parece que ficarei com febres terçãs.
Dizem-me que será um milagre conseguir chegar lá [São Vicente], pois os ventos nordestes acabaram e já entraram os suduestes, que devem durar seis meses. Contudo, assim como estou, embarcarei hoje ou amanhã, conforme o recado que me mandaram. Pois, além de o Padre Manuel da Nóbrega já ter me escrito, após minha chegada a este porto vieram dois navios que partiram de São Vicente em dias diferentes, e em ambos ele me escreve que vá de qualquer maneira; isso é necessário para que ele possa ir à Bahia, como Vossa Reverência escreve. Eu levo a carta para ele, pois desde que estou no Brasil apenas um navio foi da Bahia para São Vicente, no qual foram os Irmãos com o Padre Leonardo Nunes, a quem Deus leve a salvamento, pois há notícias de que o navio em que ia foi tomado pelos franceses.
Em um dos navios vinha um Irmão para esta Capitania e outro que é o portador desta carta (do qual o Padre dará informações nas cartas que acompanham esta). Eu nunca o vi antes e, por meio dele, saberão notícias mais detalhadas dos que estão em São Vicente. Com ele vai outro, chamado Luís, que veio de Lisboa da Casa dos Órfãos, pois Pascoal escreveu dizendo que sua mãe o pedia.
O Padre Brás Lourenço fica agora com uma nova ocupação, da qual temos confiança no Senhor que resultará em fruto mais certo do que sinto em qualquer outra parte que vi no Brasil: pois, depois que retornei a esta Capitania, chegou aqui um líder principal chamado Maracajaguaçu (que quer dizer “Gato Grande”), que é muito conhecido dos cristãos, muito temido entre os gentios e o mais influente entre eles. Ele vivia no Rio de Janeiro e há muitos anos está em guerra com os Tamoios. Tendo tido muitas vitórias antes, por fim os Tamoios o cercaram tanto em sua aldeia que ele foi constrangido a mandar um filho seu a esta Capitania pedir que lhe mandassem embarcação para fugir, pois ele, sua mulher, seus filhos e os seus queriam se tornar cristãos.
Isso moveu a piedade dos moradores, por saberem quanta bondade, bom tratamento e fidelidade ele sempre usou com os cristãos. Os cristãos que vieram daquelas partes afirmavam a extrema necessidade, parecendo que em poucos dias seriam comidos pelos inimigos. Ele já havia manifestado esse desejo de ser cristão a muitas pessoas, inclusive a Tomé de Sousa. Mas não ousaram resgatá-lo por ele ser de outra Capitania (São Vicente), a quem ele não pediu socorro por serem seus inimigos também os índios de São Vicente. Assim, seu filho voltou sem ajuda. Após a chegada de Vasco Fernandes Coutinho, sabendo disso, ele voltou novamente do caminho para pedir este socorro. Pedimos então a muitas pessoas que mandassem buscá-los, pois, sendo certa a necessidade, salvar-se-iam aquelas almas (especialmente os filhos pequenos) e os cristãos cumpririam o dever de gratidão pela amizade que ele sempre teve. Vasco Fernandes Coutinho tomou testemunhos sobre isso e mandou 4 navios protegidos com artilharia contra os franceses (que sempre existem naquele Rio). Ao chegarem lá, encontrando-os já com casas e bens queimados, embarcaram-se em um dia e meio com tanta pressa que pais deixavam filhos na praia; dois que estavam para morrer de fome foram batizados logo e nos entregaram.
Estes estão fazendo sua aldeia junto desta Vila. Eu pretendia ir morar entre eles se ficasse aqui, mas o Padre Brás Lourenço se ocupará com eles. Espero no Senhor que se tornem cristãos e que dali reuniremos alguns meninos que serão mais fiéis do que costumam ser.
Creio que Vossa Reverência saberá da morte de nossos dois Irmãos que os Carijós mataram. Queira Nosso Senhor fundar ali uma nova Igreja, como começou por ali nas outras partes. Vossa Reverência, por amor do Senhor Deus, tenha memória deste seu tão indigno filho e me dê sua santa bênção. Recomendo-me intimamente às orações dos meus caríssimos Padres e Irmãos. Não escrevo a eles — embora sempre tenha tido esse mau hábito — pois, como não posso escrever a todos, não ouso escrever a apenas alguns. Aos meus diletíssimos Irmãos que me escreveram, que Deus lhes dê a perfeição que eu lhes desejo.
Desta Capitania do Espírito Santo, hoje, 24 de abril de 1555. Inutilíssimo filho de Vossa Reverência, Luís da Grã.
24/04/1555: Do P. Luís Da Grã [Ao P. Diego Mirón], Lisboa Espírito Santo. História Capixaba, 2026. Disponível em: . Acesso em: .
LEITE, Serafim. Monumenta Missionum Societatis Iesu. Vol. XI. Missiones Occidentales. Monumenta Brasiliae, Vol. II (1553-1558). Roma: Monumenta Historica S. I. 1957, p.222-227
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