07/09/1702: Cópia da informação do Provedor da Fazenda da Capitania do Espírito Santo

 

  • Documento

 

Senhor Capitão-mor Francisco Ribeiro. A informação que Vossa Mercê me pede sobre o descobrimento das minas de ouro do Rio Doce, que por ordem de Vossa Mercê, teve do Senhor Dom João de Lancastro Governador e Capitão Geral deste Estado, eu fui fazer por não haver quem quisesse acompanhar a José Cardoso (a quem estava cometida a dita jornada) pela sua áspera condição e os moradores desta Capitania publicamente dizerem que só indo eu me acompanhariam, como tudo consta a Vossa Mercê pelos papéis que me fizeram e atendendo eu ao serviço que nisso fazia a Sua Majestade, que Deus Guarde, e Vossa Mercê assim me ordenar e pedir, com efeito parti desta Capitania em vinte e cinco de Março deste presente ano, com vinte homens brancos, uns à sua custa e outros à do Donatário e quarenta índios pagos também pela Fazenda do Donatário e chegando a Barra do Rio Doce começaram a adoecer parte dos homens que me acompanhavam, causa por onde tive alguma dilação e deste modo fui fazendo viagem alguns dias, sempre por terra a beira do dito rio Doce, e dai me fugiram todos os índios, trazendo consigo toda a ferramenta, pólvora, munição e tudo o mais que puderam, de mantimento e vestuário dos moradores, que tudo os ditos índios carregaram. Fiquei logo tão impossibilitado, que para poder seguir viagem, foi necessário fazer um par de canoas para comboiar algumas pessoas com o resto da carga que os índios não puderam levar e com todo este vagar iamos, por nos irmos sustentando somente da espingarda e algum mel e não podendo alguns moradores que me acompanhavam aturar as necessidades que passavam no mato se retiraram para suas casas porque aos mais deles lhes era necessário levar às costas as suas cargas e deste modo não podiam buscar o sustento; fiquei somente acompanhado do Sargento-mor Tomaz Ferreira Mendes, o Capitão João de Barcelos, João Freire, Antônio Ferreira de Queiroz, o Moço, e Manuel de Castilho e com três índios, e quatro escravos do gentio de Guiné, sem entre nós haver um que tivesse experiência e soubesse buscar o ouro, mais que o dito Antônio Ferreira que só este tinha alguma pouca experiência de como se bateava; e fazendo experiência em um ribeiro, dia de São João, dentro na véa dele me pintou alguns grãos de ouro, e seguindo sempre me foi pintando melhor até uma paragem que me pareceu capaz para abrir umas catas, quis dar princípio a elas e não foi possível, a respeito de não ter com que cavar, e os três índios que ficaram se não atreverem pela falta de sustento, retirei-me fazendo sempre a mesma experiência pelos ribeiros que tinha deixado atrás e em treze que experimentei todos me pintaram assim na véa dágua como nas ribanceiras dos rios e margens dêles, e debaixo de qualquer pedrinha que se experimentava se achava e se tivesse com quem o cavar e pessoa que tivesse experiência poderia tirar muito por me parecer que todos eles estão cheios de ouro, porque à superfície da terra achei alguns granitos deste ribeiro, donde me retirei; pus quinze dias pelo rio abaixo até esta Capitania, sendo que à ida, pus passante de quatro meses pelo vagar que tenho dito. Sendo que se faça viagem em canoas pelo rio em um mês se hão de por no dito ribeiro do sertão, donde cheguei, os quais todos estão em terras do Senhor Manuel Garcia Pimentel Governador perpétuo desta Capitania e por ordem do dito Senhor me socorreu Vossa Mercê ao sertão com alguns mantimentos e ferramenta, pólvora e munição, que foi com que me retirei, e a não ser assim pereceríamos todos pela grande austeridade que naquele sertão se passa e não nos poderíamos retirar e assim estou com ânimo e outros muitos moradores a que em Março, com ordem do Senhor General e regimento seu, a fazermos entrada a lavrar o dito ouro, e como Vossa Mercê sabe se não pode fazer entrada sem índios pela falta que há de escravos próprios, será necessário que o Senhor General mande que os superiores das aldeias desta Capitania, dêm os que forem necessários, pois é serviço de Sua Majestade e se lhes pagam o seu trabalho e fazendo fuga e roubos como os passados se castiguem como o dito Senhor ordenar em seu regimento; e da bondade do ouro, que tirei lhe consta a Vossa Mercê pela certidão do contraste desta Capitania. E’ o que posso informar a Vossa Mercê com toda a verdade, a quem Deus Guarde. Vitória, sete de Setembro de mil setecentos e dois. Servidor de Vossa Mercê. Francisco Monteiro de Morais.

Certidão de Reconhecimento.

A quantos esta certidão de reconhecimento e passada em pública forma de meu ofício a requerimento de parte virem, certifico eu João de Barros Gavião Tabelião público do judicial e notas, nesta Vila de Nossa Senhora da Vitória, Capitania do Espirito Santo, certifico que eu conheço e reconheço muito bem ser a letra do sinal atrás, posto ao pé da informação, do Coronel Francisco Monteiro de Morais, porque vi-o escrever e assinar muitas vezes, e assim a este se pode dar inteira fé e crédito onde for apresentada. E por verdade passei a presente que assinei em público e raso seguinte, em sete de Setembro de mil e setecentos anos. João de Barros Gavião. Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque.